Depressão pós- parto:Entrevista com Dr. Joel Rennó

fevereiro 12, 2010 Comportamento, Gravidez

depressao-pos-partoDistúrbio de humor de caráter multifatorial, a depressão pós- parto decorre de uma série de fatores, muitas vezes não controláveis. Gravidez não desejada, marido desempregado, baixo peso do bebê, separação do casal durante a gravidez e muitas outras questões, podem estar envolvidas na gênese da depressão pós parto.

Estava fazendo uma visita pelo Atmosfera Feminina e encontrei uma entrevista bastante interessante com Dr. Joel Rennó Júnior, médico-assistente do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP.  É coordenador do Promulher, Projeto de Atenção à Saúde Mental da Mulher, que trata mulheres com diversos dipos de transtornos como depressão pós-parto, TPM e muitas outras.

Vou colocar aqui parte da entrevista, afinal, é um tema bastante interessante e que, muitas vezes, nem os próprios médicos conseguem lidar da melhor forma com estas pacientes. Vejam o que o Dr. Joel Rennó fala sobre o assunto:

Atmosfera Feminina – Fale um pouco sobre os transtornos psiquiátricos relacionados à gestação, entre eles a depressão pós-parto? Dr. Joel Rennó Jr. – Na realidade são vários quadros que acontecem no período do pós-parto. A depressão é apenas um deles. Para se ter uma idéia de 50% a 85% das mulheres no período pós-parto têm sintomas de depressão, sintomas ansiosos, mas são sintomas leves, que geralmente ocorrem logo no primeiro, segundo ou no máximo terceiro dia, e esses sintomas remitem até duas semanas. Nestes casos, que são a maioria, não precisam de um tratamento psiquiátrico e nem de acompanhamento psicológico, apenas um gerenciamento do nível de estresse, uma rede de apóio, de suporte pra esta mãe.  Muitas vezes, são “marinheiras de primeira viagem”. Portanto essas mulheres têm um quadro leve que chamamos de disforia pós-parto, que é caracterizado pelo choro fácil, irritabilidade, ansiedade, leve distúrbio de sono, quadros que não são necessários entrar com medicamentos, mas devem ser diagnosticados, porque parte deles pode evoluir efetivamente para um quadro de depressão pós-parto.

Atmosfera Feminina – Além da depressão pós-parto existem outros transtornos?

Dr. Joel Rennó Jr. – O quadro mais raro que existe é o da psicose puerperal. É um quadro caracterizado por sintomas psicóticos, alterações de juízo, de crítica, as pessoas têm alucinações, sintomas de perseguição, pensamentos incoerentes com a realidade. Esse quadro ocorre um em cada 2 mil nascimentos. È um quadro raro, mas é um quadro grave e que tem que ser diagnosticado precocemente e tratado em regime de internação psiquiátrica. Pois pode ter risco da mulher se matar e até cometer um infanticídio. É um quadro que requer um tratamento mais intenso.

Atmosfera Feminina – Há estudos sobre a depressão pós-parto?

Dr. Joel Rennó Jr. – Os estudos nunca conseguiram achar uma correlação entre nível hormonal seja de estrógeno ou a própria progesterona e o quadro de depressão pós-parto. O que sabemos é sobre a queda abrupta de hormônios, e que torna algumas mulheres geneticamente mais suscetíveis a terem sintomas de depressão pós-parto, não se encontra uma correlação direta de causa e efeito entre hormônio e o quadro de depressão. O que tentamos fazer é mapear quais são as alterações genéticas que essas mães mais pré-dispostas a essas oscilações hormonais têm.
Observamos que isso interfere também na perimenopausa, que é o período um pouco antes da menopausa, começa por volta dos 47 anos, e a menopausa é geralmente por volta dos 51 anos e tem também no pré-menstrual. Tanto é que mulheres com antecedentes de TPM têm maiores chances de ter um quadro de depressão pós-parto e mulheres com depressão pós-parto têm maiores chances de ter uma depressão na perimenopausa.

Atmosfera Feminina – Quais os sintomas mais recorrentes da depressão?

Dr. Joel Rennó Jr. – Muita tristeza, desânimo, irritabilidade, ansiedade, perda de interesse pelas coisas, insônia, dificuldade de atenção, concentração, memória, pensamentos negativos. Outro dia atendi uma senhora com esses sintomas, e ela sempre foi uma pessoa super ativa, de alto astral, cativante no ambiente de trabalho, começou a ter um prejuízo dentro do próprio relacionamento, que sempre foi saudável e estável. Acabou interferindo em várias esferas da vida da pessoa.

Atmosfera Feminina – Neste caso, qual seria o tratamento indicado?

Dr. Joel Rennó Jr. – O tratamento envolve, quando há uma disfuncionalidade significativa pra relações pessoais e profissionais, sofrimento psíquico, geralmente é indicado o uso de antidepressivo. Agora se for um quadro mais leve, no caso da perimenopausa, muitas vezes a terapia hormonal por si só resolve esses sintomas.
Ou então inicia o tratamento com a terapia hormonal, quando não há contra-indicações. Mas quem decide isso é o ginecologista. Se não houver uma melhora com a reposição hormonal, ou se tiver uma melhora parcial dos sintomas, muitas vezes a associação de determinados antidepressivos colabora para um sinergismo, ou seja, uma ação sobreposta do hormônio com o antidepressivo, acabam se potencializam entre si.
Muitas mulheres neste período estão se aposentando, começando a ter os filhos saindo de casa ou, às vezes, o que nós chamávamos de “síndrome do ninho vazio”, hoje chamamos de “síndrome do ninho cheio”, que acontece com aquelas que vêem os filhos desempregados  voltando a morar com os pais, muitas vezes acabam até que sustentá-los.
Outras pacientes que estão passando por essa fase me falam que continuam pensando como quando tinham 20 anos. Mas o corpo não acompanha, ficam angustiadas. Pensam como jovens, mas quando vão fazer qualquer atividade, ficam cansadas, sentindo o peso da idade, e isso me acaba em depressão, uma baixa auto-estima terrível. A mente continua a mesma, só que o físico, literalmente, não continua mais.

Atmosfera Feminina – É verdade que os pais também sofrem de depressão pós-parto?

Dr. Joel Rennó Jr. – Sim. Eles vivem as mesmas angústias, tristezas. O número de pais que desenvolvem depressão pós-parto é de 4% dos homens, um número significativo. Mas o que se observa é a dificuldade do homem em se posicionar num novo papel, muda muita coisa, principalmente no início. A mulher tem outras funções, está mais cansada, é um trabalho cansativo, embora prazeroso para maioria, ser mãe é trabalhoso e, queiramos ou não, a maior carga de trabalho, por mais que o homem ajude, é da mulher. E tem mais, ela tem que estar bonita, com todos os atributos, dando um super afeto, hipersexualizada. Nesta fase, muitos homens sentem-se menosprezados, pensando que a mulher não gosta mais dele, como se estivesse preterindo ele em detrimento da criança. E, às vezes, coincide neste período o homem estar ganhando mal ou desempregado, ou ainda, passando por conflito de estresse no trabalho. Conseqüentemente, ele acaba pensando que não será capaz de sustentar e ser o provedor desta família.

Atmosfera Feminina – As “mães de primeira viagem”. A relação da mãe com o bebê, a depressão pós-parto, como elas encaram e reagem às mudanças?

Dr. Joel Rennó Jr. – Você abordou uma questão muito importante. Porque tem mães adolescentes que tem sérios conflitos com as próprias mães. Tiveram muitos atritos, foram de alguma forma negligenciada durante a infância e na adolescência e, agora, querem fazer o contrário. Mas é importante ressaltar o quanto a gravidez, a gestação é um período de muito estresse, porque fica num jogo de conflito muito intenso entre o papel que ela quer efetivamente fazer, e o papel que ela pode fazer. É um fator de risco para a depressão pós- parto, ter uma relação conflitante com sua própria mãe.
Em relação a uma mãe de primeira viagem, em primeiro lugar as pessoas não devem ter esse conceito de que toda gravidez é uma gravidez tranqüila, sem estresse, pensando que é uma gravidez mágica. Falo isso porque algumas mulheres que me procuram, não admitem que possam ter algum sentimento de rejeição durante esse período. E, durante essa negação, é muito difícil a mulher procurar ajuda. Acho que a primeira coisa é não negar a possibilidade de ter sintomas, isso pode ser normal para algumas mulheres, e não significa que elas vão ser péssimas mães, que não estão preparadas para a maternidade. Ela deve ter consciência de que, durante esse período, por uma situação até hormonal, podem ter uma pré-disposição maior aos sintomas de ansiedade e de depressão.

Atmosfera Feminina – Esses sintomas podem ser diagnosticados no pré-natal?

Dr. Joel Rennó Jr. – Acho importante no pré-natal, elas relatarem, mesmo que estes sintomas, inicialmente, sejam clínicos. Não há nenhuma correlação com o quadro específico do ponto de vista psiquiátrico, mas é importante que relatem, e que leve em consideração a opinião das pessoas da família, pessoas próximas, que convivem com ela. A mulher não deve se basear apenas pelo referencial próprio, quando isso for possível, ela deve contar com uma rede de suporte que ajude a ter um maior discernimento. Na minha visão, cabe aos médicos obstetras dar uma maior atenção, no sentido de uma avaliação do ponto de vista da saúde mental, mais apurada.
Muitos se esquecem de perguntar sobre sintomas depressivos, sobre o uso de álcool e tabagismo na gestação, essas coisas são tão absurdas, mas, infelizmente, ainda acontecem nos pré-natais. O álcool e tabagismo são fatores de risco pra alguns distúrbios psiquiátricos, e que mais tarde a criança vai apresentar problemas na adolescência. Temos trabalhos mostrando a relação entre cigarro e álcool com transtornos da hiperatividade. Muitas mulheres acham que beber socialmente é possível e não tem nenhum estudo mostrando o nível adequado de álcool na gestação. É necessária muita atenção nestes casos.

Atmosfera Feminina – Há uma falta de informação? Existem alguns médicos que não estão sabendo lidar com esses pacientes?

Dr. Joel Rennó Jr. – Em partes sabemos que há uma pressão por tempo, tanto em atendimentos do setor público de saúde como no setor de convênios. Acredito que no tempo de consulta, que geralmente gira em média de 20 minutos, às vezes até menos, acho impossível fazer, além da avaliação obstétrica e clínica, a psiquiátrica também. E, convenhamos ou não, no Brasil não temos ainda uma perfeita integração entre a obstetrícia e a psiquiatria, a psicologia. Tem alguns fatos positivos, de qualquer forma ainda é muito insuficiente.

Atmosfera Feminina – Existe o preconceito em buscar ajuda de psiquiatra?

Dr. Joel Rennó Jr. – Envolve muitos fatores, mas sem dúvida nenhuma existe preconceito. Dou palestras para médicos obstetras, encaminho pacientes e vice-versa. Isso no meio acadêmico é uma coisa, mas quando você sai para outra esfera, para a população em geral, vemos que há medo, inclusive por parte de alguns médicos de encaminhar a paciente para o psiquiatra, com medo da recusa. É comum ouvirmos: Doutor, o senhor está me encaminhando para um médico de louco? E a dificuldade em lidar com o desconhecido, que acaba colaborando para essa recusa.

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Comments (2)

 

  1. [...] Depressão pós- parto,: Entrevista com Dr. Joel Rennó [...]

  2. Ismael disse:

    é interessante ver isso abordado dessa forma… falando de Homens com depressão pós parto, pq eu sou o Filho mais velho e meu pai teve depressão pós parto… na época não era abordada dessa forma… legal as indagações es as respostas tb… Claro!

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